Publicado em 29 de março de 2018 por Paço da Imagem

Na categoria: Artigos,Dicas

Objetiva normal – comprar ou não comprar?

Há vinte anos ninguém poderia mencionar a frase “Não compre uma lente 50 mm”. A justificativa é que praticamente todas as câmeras, quando compradas,  traziam em seu corpo uma objetiva normal – a lente 50 mm. Mas como tudo mudou e as câmeras de hoje não são mais as analógicas – NÃO COMPRE UMA LENTE 50 MM! Porém, se você tem a certeza de que tecnicamente precisará dela, ou seja, que a sua atividade fotográfica já revelou esta necessidade de forma concreta, COMPRE A SUA OBJETIVA NORMAL sem qualquer risco de arrependimentos visto que há uma necessidade já identificada. Agora, se você está começando a se envolver com o universo da fotografia ou já é um fotógrafo de família, de viagens turísticas ou pretende se tornar um profissional bem sucedido do ramo de reportagens, ainda que seja na área da fotografia social, pesquise, informe-se, justifique a sua compra.

 

A lente 50 mm – considerações

 

  • As objetivas fixas, como a que abordamos neste artigo – a normal, não nos permitem abrir ou fechar o ângulo de abordagem sobre a cena sem que tenhamos, para isso, que nos mover andando para frente ou para trás considerando que seu ângulo de visão é fixo. Em uma reportagem dinâmica ou um casamento potencialmente mais lento, se deslocar fisicamente muitas vezes se torna um problema ou quase impossível em algumas situações de pouco espaço ou tempo para fazê-lo. Por este motivo, a 50 mm não seria a objetiva recomendada para um fotógrafo que necessitará alterar repentinamente sua abordagem angular sobre a cena. Repare este profissional em campo e perceberá que sua lente é de tamanho destacado e longa – na maioria das vezes, uma teleobjetiva bem ampla no que se refere sua distância focal;

 

  • A 50 mm, a lente conhecida como normal, oferece um ângulo de abordagem muito familiar, comum à percepção do olho humano tornando o resultado do ato fotográfico menos interessante e previsível, sob o ponto de vista angular, por conta dessa perspectiva de abordagem mais comum. E, se você utiliza uma câmera com fator de corte do tipo APS-C, as câmeras identificadas como cropada, não estamos falando de uma objetiva normal, mas de uma meia tele visto que seu sensor digital (CMOS) é de formato menor alterando sua distância focal para um valor superior ao da descrição da lente em um fator que pode variar entre 1,5 e 1,6. Assim, referir-se à objetiva 50 mm como uma objetiva normal é no mínimo um erro. Porém, ainda é uma objetiva fixa e por isso de abordagem angular fixa, limitada e que requer um nível de uso bem específico, pontual;

 

  • As câmeras “digitais” utilizam um sensor que substituiu o filme no processo de obturação da imagem. Este sensor quando acionado, produz eletricidade estática. Isso significa que qualquer impureza que esteja no corpo da câmera, muito provavelmente será sugada e fixada sobre o sensor provocando sua visualização em todas as fotografias produzidas após este fato. Este acontecimento é relativamente comum e, mais cedo ou tarde, acontecerá com sua câmera ainda que você evite substituições recorrentes de objetivas. Porém, na medida em que você, repetidas vezes, expõe ao tempo o corpo da câmera sem uma objetiva, seja por necessidade de troca de uma lente ou simples falta de planejamento operacional, a possibilidade de alguma impureza entrar o corpo da câmera e se prender ao sensor na hora em que uma imagem for obturada é muito grande. Por este motivo, quanto menos se promove a troca da objetiva, sobretudo em campo aberto, menor será este risco. Contudo, se você insiste em utilizar a sua lente 50 mm, este fato vai acontecer mais rapidamente considerando que você, necessariamente,  precisará trocar de objetiva porque a sua fixa não será útil durante todo o tempo de uso em uma reportagem social, por exemplo. Por isso, quanto menos vezes for necessário trocar a objetiva, menor será o risco de se sujar o sensor da câmera. Podemos concluir que o melhor investimento para quem trabalha com reportagens, é investir em uma lente “zoom” com uma variação angular adequada ao trabalho permitindo melhor proveito e menos riscos gerais;

 

  • A 50 mm é uma objetiva fixa e de poucos elementos óticos. Isso significa que ela naturalmente possui uma profundidade de campo relativamente ampla, grande.  Por este motivo, em algumas situações em que você esteja buscando, projetando operar com uma profundidade de campo menor com o objetivo de desfocar parte da área anterior e ou posterior da imagem, ainda que suavemente, muito provavelmente você não conseguirá esse tão perseguido e desejado efeito. Vale ressaltar que a opção em trabalhar, ainda que seja em uma situação já prevista, para produzir uma fotografia já planejada, naturalmente requer que o equipamento também seja planejado. Cabe aqui ressaltar que, de maneira geral, quanto menos elementos óticos em um corpo de objetiva, maior será a profundidade de campo obtida na imagem e vice-versa;

 

  • Outro aspecto que deve ser mencionado é que as objetivas fixas, seja a lente 50 mm ou qualquer outra, se destinam a fotógrafos que fotografam em situações onde a distância objeto (distância que compreende o intervalo entre a objetiva o ponto focal da imagem) é muito recorrente, ou seja, em que as fotografias produzidas seguem um padrão técnico e logístico, quase sempre comum. Assim, se esse não for o seu caso, não compre a sua desejada lente 50 mm. Por outro lado, se você é um fotógrafo profissional que produz suas fotos em estúdio, por exemplo, ou ainda que faça fotos de comida em diversos locais externos mas ainda fechados, certamente em algum momento vai precisar não só de uma lente 50 com de tantas outras várias que lhe auxiliarão na busca da fotografia tecnicamente perfeita que você ou um diretor de arte já definiu.

 

Ponto de vista

O que é muito importante frisar, no que se refere comprar essa ou aquela objetiva, é perceber que o maior e mais importante investimento que um fotógrafo deve fazer ao longo de sua carreira ou atividade, reside no fato de buscar entender e qualificar o quão importante, sob o ponto de vista técnico, é o papel das objetivas na obturação da imagem de forma geral. Por esse motivo, é mais indicado possuir boas objetivas em corpos de câmeras mais simples que corpos de câmeras melhores com objetivas de baixa qualidade.

Todas as colocações acima não buscam fazer da objetiva normal – a 50 mm, uma lente ruim, fora de uso. Até porque se a indústria fabrica, é porque vende e se vende é porque alguém precisa usá-la. A nossa intenção é nortear fotógrafos iniciantes, amadores e até profissionais para que seus esforços e investimentos sejam bem feitos e se justifiquem a partir de suas necessidades e desde que feitos balizados em conhecimento. Não se realiza a aquisição de equipamentos caros alicerçado em achismos ou no que é melhor para o outro. Os investimentos devem ser feitos de forma definitiva e à medida do surgimento de uma necessidade concreta. Uma obervação interessante é frisar que as objetivas devem receber maior atenção que os corpos de câmeras e, preferencialmente, evitar a compra de equipamentos de segunda linha ainda que para isso o interessado precise esperar um pouco para adquirir a lente que precisa.

 

Por Edson Gamma

 

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  • Muito boa a analise. O interessante da fotografia realmente é conhecer tudo para escolher o que ignorar, com um propósito bem definido. Dentre as lentes que usei a que melhor representa meu propósito é a 50mm porque desejo expressar aquilo que vejo, tal como vejo; então a que mais se aproxima do olho humano é a que em princípio me interessa. é Claro, na full frame.
    Muitos anos atrás, ainda jovem estudante na universidade, estudamos em Filosofia das Ciências os “obstáculos epistemológicos” e por consequência o papel da intuição como fundamental ao cientista. Aquele ‘insight’ completamente fora da metodologia convencional é na verdade o motor da ciência. Hoje, curtido pelas observações do quotidiano, vejo como isso se verifica na minha fotografia. Disparo por instinto, porque um elemento me atrai na cena; depois, na ‘revelação’ o objeto principal, que era o verdadeiro alvo, surge gritando. Não era o que me parecia ser a princípio. A neurociência já explica isso dizendo que o cérebro é ‘um ente totalmente autônomo’ que nos comanda inteiramente e tem seus objetivos próprios, enquanto vaidosamente pensamos que nós é que o comandamos…

    • Olá Claudio,
      Não há concessões ou impedimentos no uso das ferramentas da linguagem fotográfica tanto quanto não o há no ato. Como você bem coloca, o mais importante, delirante e entorpecente é quando de fato nos vemos naquilo que fazemos sem que tenhamos a intensão, a consciência. Filosoficamente, não damos conta do real, ele é fugaz ele é o tempo. Esse exercício da arte, nos reverbera, é o encontro do eu que nos encanta e nos revela. Abraços!

  • Grata pelos esclarecimentos. Era o que eu precisava ler. Fiz o investimento na 50 mm e agora estou bastante segura de que foi o certo.

    • Olá Tatyana,
      agradecemos o seu comentário e ressaltamos que o nosso propósito é, de alguma forma, conseguir materialidade para que pessoas como você possam refletir e tomar a decisão certa quanto à compra do seu equipamento. Conte sempre conosco!

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